quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Como hoje

Hoje
é mais um dia...
que eu me encontro aqui...
aqui nesse canto de vida...
de vida...
de vida...

Hoje
Hoje

Hoje estou a pensar...
pensar
pensar
no que poderia fazer
pra
cada dia
cada dia
cada dia
- mais -
pensar
pensar
sem sofrer
sem chorar....

Hoje
é mais um dia
que estou a
escrever
aqui
aqui
onde tudo posso
ser.

Hoje
lembro
que no passado

folhas me ajudavam...
eu escrevia
eu escrevia
escrevia e lia
lia e escrevia
escrevia e sorria.

Hoje
é depois de ontem.
Ontem passou.
Hoje ficou.
E
amanhã

o amanhã.

La, la, la, laaaaa...
La, la, la, laaaaa...


Nascimbene, 21/02/2018

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Com a Luz

Quando olho pro futuro
me vejo muito contente
relembro coisas do passado
quando eu não era gente

E me deparo no presente
olhando para o Alto
Mirando O Onipotente
Mui Gracioso e Calmo

EU ROGO A DEUS, AO PAI
POR TANTO TANTO BEM QUE FEZ
EM SUA PRESENÇA, PAI
ESCORRE MEU PECADO E CAI

Se um dia eu estava só
pensando em dor e em morte
errando sem ter luz, no pó
deixado pela sorte

Da lama Ele resgatou
um lodo sem valia
que com Graça transformou
em penhor de honraria

Sem teor nem substância
a composto mui potente
Com O Poder da Aliança
me fez Cristão e gente

EU ROGO A DEUS, AO PAI
POR TANTO TANTO BEM QUE FEZ
EM SUA PRESENÇA, PAI
ESCORRE MEU PECADO E CAI

Sentava, ouvia uma música
que me abalava o espírito
De nada estava convicto
A vida m'era rústica

Falava pouco, pouco ouvia
Ignora a muitos
E nos momentos fortuitos
enganava - e Deus via

Mas um dia, pela Graça
Meu coração se abriu
Jesus que nele batia
minha dor sentiu

Com Seu Sangue me lavou
tão Precioso e Santo
Minha vida transformou
em esperançoso encanto

EU ROGO A DEUS, AO PAI
POR TANTO TANTO BEM QUE FEZ
EM SUA PRESENÇA, PAI
ESCORRE MEU PECADO E CAI


(25/07/2016)

Nascimbene, 07/2016


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Demônio homem

E no sofá,
ficando eu dormindo,
sonhando estava
quando eu te vi:
moreno forte,
e muito, muito lindo -
mas olhos feios
que bem percebi.
- És um demônio!,
logo adiantei,
e seu sorriso
mais se alargou.
Tuas mãos grandes
cheias de cabelos,
teus dedos firmes
todos a me puxar,
teu peito alto,
tua voz tão grave,
teus toques íntimos
a me acariciar.
- És um demônio!,
logo repeti,
mas quando vi
estava a me entregar.
Agora, debochativamente,
teu corpo quente atraia o meu;
e se afastava, e eu loucamente,
me aproximava para junto ao teu.
Minhas mãos desciam
e encontravam o membro
a latejar pecado e horror;
as tuas incentivando o ato
me seguravam no teu calor.
- És um demônio!,
e lutei contigo,
sempre perdendo e deixando ceder.
Quando o molhado eu senti sair
saltei do sonho e me vi real.
Me lavei, repreensivamente,
pedi a Deus pra te afastar
das dos meus olhos
retinas traídas
teu jeito mórbido de me conquistar.
Era demônio!
(Lembrei da esposa
e da criança em casa a dormir).
Era demônio!
Devassidão!
Da Perdição
me senti sair...

Nascimbene, 02/2017.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Cardiomegalia

Se um dia já fui má
pessoa, me desculpe:
pequeno era meu coração
e imune -
imune à dor
do medo
da morte
do cessar da vida,
imune à lagrima,
caída.

Se te deixei chorar
amargamente

num canto;
e se ao invés
de amor
te dei somente
pranto;
e no teu colo
deitei brasas
acesas,
vivas;
não, não me culpe -
já me baste a vida!

É que as salas
de meu peito,
de meu coração,
tão retraídas
se encontravam
e tão sem emoção;
eram como as de noites
de festa, vazias,
sem fazer jus
a tua companhia.
E todo choque
que me choque
chocará jamais
como esse choque
que me mata
e me faz viver mais...

Se ontem era
uma bomba déspota
vadia;
vazia,
sem sombra de dúvida -
mas sombra de dívida,
e fria;
hoje é mais fraca
e forte,
é poderosa,
sadia,
trabalhadora
como as mãos que roçam
a roça bravia.
Sobra agora
essa hora tênue -
quão corredia!

Meus dedos
tateiam o vulto
das boas coisas,
deixando cair as outras
e recolhem risos;
se dobra a hora,
se dividindo
em minutos findos -
que temia.

Se acaba agora,
que eu vivera (só reclamar sabia)?
Se acaba agora,
que obtivera (se só grunhia)?
Se me rompesse
agora
este peito meu,
se minha vida
agora
recolhesse Deus:
que eu faria
pra resgatar minha vida
e que presente
a Morte me traria?
Se nem as cãs me caem
sobre a testa;
e se nem vi meus filhos
todos bem;
e se meu neto ainda
nem caminha -
porque a Ela eu diria:
"Vem"?

Morra eu ontem
ou mate-me o amanhã,
o agora vivo
como nunca;
se feriado,
seja qual for o dia,
segue ela, Cardiomegalia.

Agora posso sofrer mais
pra amar,
mas há mais espaço
pr'amor entrar.


Nascimbene, 02/2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Duas senhoras num ônibus


A primeira senhora está dentro do ônibus e vê quando ele para e recolhe pra dentro a segunda senhora, sua amiga, .
O morista, sendo conhecido de ambas as senhoras, brinca com a que está pra passar a roleta e a cumprimenta:
- Oi, tudo bem?
- Tudo... Mas você quer me atropelar é?
- Claro! Já aproveito e dou uma carona até o cemitério!
Ambos riem. A primeira senhora ri e acena para segunda:
- Venha aqui, deixa esse motorista velho e babão pra lá...
Quando a segunda roda a roleta parece desfazer uma barreira que havia entre elas até o momento, porque a euforia se torna tamanha: abraçam e beijam-se, com gritinhos e tapinhas...
- E aí, amiga, tudo bem?, pergunta a primeira.
- Tô ótima, e você?
- Hm, Graças a Deus, muito bem também! - e sorriem, alegres - E o velho? - continua a primeira, mais baixo, como quem confidencia um segredo.
- Ah! - suspira a companheira - Aquele não tem mais jeito! Quebrou a outra perna! Já tinha quebrado uma, estava com o pulmão ruim e resolveu quebrar a outra pra ajudar...
Ambas riem.
- E ele não melhorou nada então? - pergunta a segunda, mais descontraída.
- Melhorar? - questiona a segunda, com uns olhos abertos, surpresa - Não, não! Aquele só a morte da jeito, amiga! Não come, não bebe e só reclama...
- Nossa... Mas e a mulher?
- A mulher: aquele tá nem aí não...
- Mas e os filhos?
- A filha, quer dizer... Os outros não estão nem aí e agora ele brigou com a filha e ficou sem ninguém... - e erguendo os ombros - Restou só eu!
- Mas é muito difícil ele? - torna a perguntar a primeira, atenta.
- Ah, nem posso culpá-lo... Aquele homem nem para mais em pé... Por dentro tá tudo ruim!
- Mas que deu nele mesmo? Foi a bebida?
- Sim, foi a bebida, sim... Por isso o filho não quer saber...
- E o irmão dele?
- Diz que ele caçou com as mãos, que se vire... - balança a cabeça - Aquele é um outro sem-jeito!
- Já virou cirrose o dele! Certeza! - conclui a primeira.
- Não sei, mas pode ser que sim, porque ele tá bem ruim... - apoia a segunda.
- Por que que não morre, não é? - torna a primeira, simplista.
- Ah, quando não é hora num é hora: é assim mesmo que é...
- Ainda bem que tem você pra aguentar... - conforta-a a primeira.
- Quê? Eu? - ironiza a segunda - Eu não quero que minha alma vá pro céu não, só minha alma não... Quando for quero que eu vá de corpo inteiro!
Ambas riem.
Ambas dão sinal e descem no mesmo ponto.
O motorista de despede e ainda brinca uma última vez, no que as senhoras riem e, logo em seguida, embalam a conversar o mesmo ou um outro assunto...


Nascimbene, 2016.

Um dia, nesse dia


Um dia vocês acordarão reclamando do calor infernal das telhas brasilites sobre você e sua esposa e procurarão o ventilador doado pela família, mesmo que irritados com o consumo de energia elétrica, que será de alto custo nesse dia... Você, homem, sairá de casa reclamando porque a mulher não cozinhou feijão e nem cozinhou legumes... Você, mulher, estará estressada porque o homem reclama de tudo e por ter que cozinhar feijão - que está na dispensa - mesmo sem estar disposta a fazer...
Um dia seu sogro se irritará por ser incomodado por um rapaz que vaga pela ruas e dorme num carro condenado ao ferro-velho, em frente à casa da família que um dia se chamou sua... Ele pedirá ao seu sogro que passe músicas pra ele num cartão de memória que tem...
Nesse mesmo dia seu sogro lembrará que ele tem conhecimentos de eletrônica e que sua filha agora a pouco deixou cair o ventilador no chão, desmontando-o; e, nesse mesmo dia, pedirá a essa rapaz que o conserte, por favor...
Nesse mesmo dia ele consertará o ventilador e o trará melhor que quando ganharam do sogro, funcionando perfeitamente, firme no seu eixo...
E quando a mulher falar ao pai que não tem dinheiro para pagá-lo, ele irá ouvir - e sorrir: porque na verdade ele só quer mesmo é um prato de comida... E se ela se oferecer pra fritar um ovo dirá que não se incomode, porque arroz e feijão já bastam...
A mulher, nesse dia, no frigir dos ovos, sentirá vergonha...
O homem, nesse dia, em frente ao ventilador, sentirá vergonha...
O sogro, nesse dia, sob o arcondicionado, sentirá vergonha...
O calor das brasilites sentirá uma fria vergonha...
O consumo de energia elétrica sentirá vergonha...
O feijão da despensa sentirá  vergonha...
O dia, um dia, nesse dia, sentirá vergonha
A vergonha sentirá vergonha...
Mas o homem, nesse dia, terá matado sua fome.


Nascimbene, 2016.

A campainha


É sempre um salto.
Um pulo.
Um susto.
Um surto.
Um alarme...
É sempre uma âncora forte que o arranca da hipnose de ser escravo consciente de um sistema invisível: o soar da campainha!


Nascimbene, 2016.